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Detail of a gilded frame holding a dark classical painting

Mãosde Paris

2025

Minha mãe cantarolando Édith Piaf no quarto ao lado.

Se busco mais memórias, encontro minha mãe pintando, com suas unhas vermelhas sempre bem feitas.

O cheiro de tinta me arrasta pro assombro do quase toque entre Deus e Adão1, replicado até a exaustão em camisetas, comerciais de TV e livros de toda espécie.

Essa tensão divina, que anseia mas não chega, me transporta pro mais profundo dos oceanos, com os olhos fixos no teto do universo, onde dorme plena a criação de Adão. Será que um dia eles se tocaram? Ou viveram desconectados, com uma energia que viaja entre seus dedos?

Quem cria imagens sabe que tudo tem intenção, consciente ou não.

Detail of a painting: outstretched arms and hands against dark drapery

Essas imagens foram criadas com intenção, um dia no Musée d'Orsay, dentro do mar, com os olhos pro teto do universo. Que música minha mãe cantaria nas galerias desse museu? Onde descansariam suas mãos?

Que música minhamãe cantarianas galeriasdesse museu?

Parisian Hands - hands

A foto de uma arte nada mais é que um registro sem aura do original.

Essas imagens também podem ser lidas como simples reprodução. Não são mais cheiro de tinta e unhas vermelhas. Walter Benjamin2 já ensaiou que, na era da reprodutibilidade técnica, a foto de uma arte nada mais é que um registro sem aura do original. Reproduzir não é criar. Deus e Adão replicados em camisetas podem ser exaustão, memória de algo já visto, ou apenas tensão superficial.

Parisian Hands - hands

Quem já apoiou a mão na superfície de uma piscina sabe como é essa espécie de membrana elástica invisível atuando na pele. Do mesmo modo, quem já olhou pras fotos de um jornal sabe que aquelas imagens não são neutras: se um fotógrafo escolheu o que mostrar e o que não mostrar, isso já é em si uma leitura e, como reforça Rosalind Krauss3, a fotografia funciona como um índice que resignifica o original, tornando-se uma criação em si.

Parisian Hands - hands

Nem todafotoé memória

Sebastião Salgado4 bem ressaltou, numa de suas entrevistas, que nem toda foto é memória. Uma mão que descansa numa das salas climatizadas do Musée d'Orsay é arte, tinta e dedos entrelaçados escondendo medos e anseios. Já um vídeo recriado por IA de um evento do passado, de uma época em que sua família nem tinha câmera, não é memória. Pode ser o vislumbre da qualidade inalcançável de um Michelangelo, mas seu lugar no espaço-tempo nunca existiu, nunca teve aura.

Parisian Hands - hands

Minhas mãos descansam na minha barba, minhas mãos viciadas. Como menciona Darian Leader em Hands: What We Do with Them – and Why5, elas acariciam a barba num gesto obsessivo que chega a fazer um barulho que irrita minha mulher.

Conscientes ou não, as mãos revelam nossas fraquezas, nossa história — e talvez por isso guardem, também, a nossa memória.

Parisian Hands - hands
Parisian Hands - hands
Parisian Hands - hands

Quem cria imagens sabe o que mostrar, quem posa para uma foto às vezes não sabe o que fazer com as mãos, talvez por elas falarem mais que o retratado gostaria de mostrar.

Às vezes eu coloco minha mão na superfície da piscina, quem sabe seja nossas peles se tocando outra vez, quem sabe se Deus tocou Adão.

Detail of a painting: outstretched arms and hands against dark drapery
A hand carrying a canvas bag by its yellow straps, seen from behind

A mensagem real é IA é uma merda

StayFuckingHuman

Notas

  • MICHELANGELO Buonarroti. A Criação de Adão (fresco, c. 1508–1512). Teto da Capela Sistina, Cidade do Vaticano. Detalhe das mãos disponível em: Wikimedia Commons. Acesso em 2026. Disponível em: Wikimedia Commons.
  • BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica [Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit]. Primeira versão, 1935.
  • KRAUSS, Rosalind. “Notes on the Index: Seventies Art in America, Parts 1 and 2.” October, vol. 3 (primavera de 1977) e vol. 4 (outono de 1977).
  • SALGADO, Sebastião. Última entrevista concedida à RFI, Normandia, março de 2025, por ocasião da retrospectiva “Sebastião Salgado: Obras da Coleção MEP”. Republicada em: CartaCapital, 27 de maio de 2025. Disponível em: CartaCapital.
  • LEADER, Darian. Hands: What We Do with Them – and Why. Londres: Hamish Hamilton, 2016.

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